Quarta-feira, Novembro 11, 2009

ALCYONE (monocromia índigo)






Falando Deus a Jó, disse-lhe:

(...) Poderás tu ajuntar as delícias do Sete-estrelo ou soltar os cordéis do Órion?
Ou produzir as constelações a seu tempo, e guiar a Ursa com seus filhos?
Sabes tu as ordenanças dos céus, ou podes estabelecer o domínio deles sobre a terra?

.............................................. (Livro de Jó cap. 38; 31-33) *ver nota



Azul,
eterno azul das solitudes,
das almas raras, das planuras ermas.
Azul sonante, sinfonia acesa,
celeste estrada azul, em fótons estendida.

Azul,
um imenso azul me traz a calma
de uma saudade anil, no eu-profundo.
A voz de muitas auras azuladas,

melodiosa luz de outros mundos.

Azul oriental de templos amplos
com abóbadas reverberantemente azuis...
Azul distante dos luzeiros cósmicos,
de onde uma placidez azul me chega aos olhos.
Vaga lembrança azul, do Sete-estrelo.

É a saudade azul dos olhos Teus...


Eurico-azul
Pina, 11/11/1993

(Não sei se foi por acaso, a data do poema e a de hoje.

Que os numerólogos expliquem-nas. rsrsrs)



@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


*Nota, no mínimo, curiosa:


Esses versículos do Livro de Jó, na edição "Bíblia com Letras Gigantes", traduzida por João Ferreira de Almeida, publicada em 1996, pela Sociedade Bíblica do Brasil, apresentam-se com a seguinte tradução, à p. 727, ipsis verbis:

"Ou poderás tu atar as cadeias do Sete-estrelo ou soltar os laços do Órion?
Ou fazer aparecer os signos do Zodíaco ou guiar a Ursa com seus filhos?
Sabes tu as ordenanças dos céus, podes estabelecer a sua influência sobre a terra?" (grifo meu)



@@@@@@@@@@@@@@@@

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

JACINTA





























Pobre de mim, que pastoreio poemas reflexivos,
Como um rebanho de cabras assustadas...
Cabras aflitas que se precipitam no abismo da dúvida.
Cabras de um deserto sem transcendência.

Ai de mim!
Alma necessitada de verdades cientificamente demonstráveis,
Em meio ao ilógico e absurdo mundar do mundo.
Há meio século indago das coisas o seu começo.
Tateio por paredes de cavernas ancestrais e nada.
De que me adianta o Carbono 14
E as medições arqueológicas de sítios milenares.

Trocaria toda a ciência humana
Trocaria até mesmo os grandes olhos do Hubble,
que vasculha inutilmente o espaço estelar,
pelo alcance de teus pequeninos e inocentes olhos, Jacinta!
Trocaria esses meus cinquent'anos de busca
pelos teus dez breves aninhos.

Hoje ufólogos perseguem ovnis,
teólogos examinam manuscritos apócrifos,
e os olhos do mundo se voltam quânticos para a realidade.

A ti bastaram singelos dez anos
Dez inocentes aninhos,
para ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Que essa luz angelical ilumine o caminho em que pastoreio
essas cabras cheias de um lirismo agnóstico e vão.

Asim seja.




@@@@@@@@@@@@@@@@

Fonte da imagem:
JACINTA DE JESUS MARTO vidente de Fátima, Beata
1910-1920

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

TERESA (prece em noite escura)



























Há dias em que eu também perscruto o silêncio
E os meus olhos erram pelo vazio.
Não nego: busco uma voz, uma palavra, uma certeza.
Quando Deus silencia, também faz-se escuro em mim.
Mas eu... eu não sou nada.
Eu sou ínfimo.
Sou um sem sentido.
Entanto, imaginava que tu Teresa,
enquanto cuidavas de teus pequeninos enfermos
trazias a alma aquecida pelo próprio Criador.
E pensava:
esse era o combustível de tão imensa caridade.
Teresa deleitava-se em gozos celestiais.
Conversava com arcanjos e serafins.
Qual nada!
Jamais imaginaria que ela sofresse disso que sofro,
Desse mesmo e terrível mal.
Jamais imaginei que havia na alma de Teresa uma noite escura
E a dura solidão de noiva que se julga rejeitada.

Jamais imaginei que Teresa tirava suas forças da angústia,
Da sensação de um Deus inacessível,
Do silencio incomensurável de Deus.

Ao descobrir o véu da noite em tua alma, Teresa, mãe de Calcutá,
Madre de um mundo miserável e sem fé,
Fico envergonhado da minha indiferença diante do outro.
Tua dúvida, Teresa, não é, como essa minha, apática e vazia.
Tu duvidavas amando.
E eu apenas... duvido.
Tu duvidavas tratando leprosos.
E eu apenas... duvido.

Tua dúvida era submissa ao teu amor.
Dúvida santa e misteriosa...
Dela, e apesar dela, retiravas a força para realizar tão grande caridade.
Hoje, Teresa, tua dúvida ilumina a minha alma
Como um paradoxal clarão em meu des/caminho de Damasco.


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Consultem o tema em:


O Silêncio de Deus
e
A noite escura de Madre Teresa de Calcutá


Fonte da imagem:
Madre Teresa de Calcutá

Terça-feira, Outubro 20, 2009

DORA





<
















Fico com a beleza da resposta das crianças:
E a vida?
É bonita e é bonita!
....................Gonzaguinha



Naquele estranho dia
Procurei os meus chinelos sob a cama
E tive a surpresa do abismo:
A cama deslizava pelo espaço
E havia anos-luz entre os chinelos e o meu braço.

Mais estranho ainda foi saber que a mesa do café
Girava junto com as cadeiras,
Junto comigo inteiro.
Meu ego e a xícara
Atravessávamos Peixes, quase adentrando em Aquarius.

Corri até a janela e o Sol me parecia maior do que Sempre.
Numinoso!
Pronunciei essa palavra automaticamente
E senti a água de meu corpo se agitar,
Como se agita a flor d'água ao receber o impacto de uma pedrinha.

Foi mesmo um dia estranho.
Descobri que sou um emaranhado de energia
E que a realidade é um feixe de possibilidades.
Isso até hoje me faz rir (de mim?).
Escolho o riso entre as minhas realidades possíveis.

Creio que eu jamais escolheria entrar naquele trem
Se estivesse no lugar da Dora Orecife.
Falta-me algo mais profundo:
O amor não-sexual, aquele que transcende a dor.
Que vence o amor a si mesmo.
O desapego dos iogues;
Dos mártires hagiológicos.
Eu sei que não entraria naquele trem, como fez a Dora.
Porque me amo extremadamente.
(Como é estranho esse amor que me lança, dia após dia, em direção aos meus chinelos).
E não é esse amor por mim, o que torna a vida uma bela película.

Já o amor de Dora Orecife é solar:
Uma espécie de amor que inunda tudo com reverberações holísticas,
Que se doa até a própria extinção;
Como o amor que faz girar os planetas
E mantê-los em órbitas;
E que os mantém aquecidos por translações inteiras.
O amor que dessaliniza as águas do oceano e as faz chover sobre os continentes.
O amor da fotossíntese.
Da grande síntese.
Pode-se ver esse Amor da minha janela há alguns bilhões de anos.
E ele faz girar vertiginosamente minha alma e essa xícara de café.
Esse Amor me faz sentir que a vida é bela
Mesmo em círculos.
A vida é bela.


Fonte da imagem:


Domingo, Outubro 04, 2009

LUIZA (experiência quântica)


























E criou Deus o homem à sua imagem:
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
..............................Gênesis, 1:27

Eu disse: Vós sois deuses...
..............................Salmos, 82:6

"O homem é um deus quando sonha
E um mendigo quando pensa."
...................................Hölderlin




Estamos na nova Manhã de tudo.
Manhã eterna e pagã.
Agora a Femina sobe a encosta
do outeiro, tangendo um rebanho de cabras.
Os balidos da Aurora
enchem o Caminho de símbolos e de bosta.
O planeta recomeça nessas tetas.
O planeta carece de regaço ma(e)terno.


Estamos na moderna Manhã de tudo.
O mundo ainda anda ab/surdo.
Há perplexidade entre os machinhos;
Mas já se escuta o balbucio atrevido das infantas.
O bélico dará lugar ao belo.
Desde sempre se anunciava
essa ascensão da Anima.

Estamos na manhã do domingo.
Os deuses estão alegres
e lançam os dados comigo.
Fazem apostas,
Divertem-se, os deuses. É domingo.
Sim, é domingo,
mas as deusas, como Deus, trabalham até hoje:

Encontrei Luiza na feira de orgânicos;
Trazia flores nas mãos
e uma sacola biodegradável.
Seus olhos luziam,
enquanto proseava com outras mulheres.
Seu sorriso era potável
como as águas dos rios futuros.
Havia cumplicidade e ternura.
Falava-se de gravidez e de luz.
Observava-me, quântica.
E me acenava, semiótica.
Quanta beleza!
Quanta esperança!

Quanta...


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


Dedicatória:

às minhas filhas já nascidas e que hão de nascer,
às filhas das minhas filhas, minhas futuras netinhas,
às minhas sobrinhas mineirinhas, à minha Allana (saudade),
e a todas as minhas amigas virtuais, ou não,
extensivo às suas filhas, netas, sobrinhas.
Enfim, o poema é dedicado ao ser feminino.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

N. do A.:

Não sei de onde e nem porquê me vem à mente
a célebre frase de Flaubert:
"Emma Bovary c'est moi". rsrsrs
Mas não esqueçam que aqui habita um Eu-lírico. rs)



Fonte da imagem:
Mulher Quântica

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Cora Coralina: aula prática de amor fraterno



















Conclusões de Aninha


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Cora Coralina
(Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas), 20/08/1889 — 10/04/1985, é a grande poetisa do Estado de Goiás. Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Em 1910, seu primeiro conto, "Tragédia na Roça", é publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás", já com o pseudônimo de Cora Coralina. Em 1911 conhece o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem foge. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos: Paraguaçu, Enéias, Cantídio, Jacintha, Ísis e Vicência. Seu marido a proíbe de integrar-se à Semana de Arte Moderna, a convite de Monteiro Lobato, em 1922. Em 1928 muda-se para São Paulo (SP). Em 1934, torna-se vendedora de livros da editora José Olimpio que, em 1965, lança seu primeiro livro, "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Em 1976, é lançado "Meu Livro de Cordel", pela editora Cultura Goiana. Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.

Sintam a admiração do poeta, manifestada em carta dirigida a Cora em 1983:

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)." Editado pela Universidade Federal de Goiás, em 1983, seu novo livro "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha", é muito bem recebido pela crítica e pelos amantes da poesia. Em 1984, torna-se a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato, como intelectual do ano de 1983. Viveu 96 anos, teve seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos, foi doceira e membro efetivo de diversas entidades culturais, tendo recebido o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás. No dia 10 de abril de 1985, falece em Goiânia. Seu corpo é velado na Igreja do Rosário, ao lado da Casa Velha da Ponte. "Estórias da Casa Velha da Ponte" é lançado pela Global Editora. Postumamente, foram lançados os livros infantis "Os Meninos Verdes", em 1986, e "A Moeda de Ouro que um Pato Comeu", em 1997, e "O Tesouro da Casa Velha da Ponte", em 1989.


Texto extraído do livro "Vintém de cobre - Meias confissões de Aninha", Global Editora — São Paulo, 2001, pág. 174.


Fonte:

http://www.releituras.com/coracoralina_menu.asp

Imagem:
Casa Brasil Itapoã

Sábado, Setembro 26, 2009

Braille (ou, São Tomé, das Letras-nº 2)





















I
Quem
Munido de compassos lassos,
E de indeterminadas réguas,
Aferirá a roda dos inumeráveis mundos,
Em sua teleológica órbita?
Quem medirá das estrelas os passos,
E as léguas
De luz?
Quem há de mensurar a Vida,
Isso invisível,
Que flui?

II
Hoje amanheço igual ao excremento,
Que flutua num mar sem lógica;
Produto escatológico do tempo,
Papel qualquer, que a ventania joga...
Isso que sou, pensa,
E busca o nexo nessa imensidão.
Mas só percebe esse lugar restrito,
Até onde alcança a minha mão.
Minha vista é curta,
Meus olhos baços,
E exploro o espaço com uma ótica de ilusão.
Minha fé é táctil.
Como apalpar as coisas com a Razão?
Como guardar as crenças e as certezas,
Crendo que há solo depois de tocar no chão?

III
Aproxima-te, Amigo, não Te ouço.
Chega mais perto, ofuscado, não Te vejo...
Fala à minh’alma,
A esses meus ouvidos moucos.
Isso. Bem perto do meu peito.
Mais um pouco.
Deixa que Te toque o flanco (e não estou louco!).
É que só alcanço Deus: verdade, estrada, vida,
Lendo no Braille das Tuas feridas.



@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Fonte da imagem:
Século XXI

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Não se compram amigos no shopping!



















imagem google



Há momentos em que os amigos, inclusive os virtuais, a família, os vizinhos, todos ganham nova dimensão em nossas vidas. Hoje, invade-me uma especial ternura por todos os que me mandam emails, que me telefonam, que comentam no meu blogue. Não lhes mandei mensagem no dia 20 de julho, mas tudo tem a sua hora. Brindo a vida e a afeição fraterna de todos os meus amigos e amigas, postando esse diálogo delicioso, que abaixo transcrevo, de um livro em que uma criança eterna nos dá lições... eternas:

(Obs.: os que torcerem os narizes de adulto para esse livro hão de virar... cogumelos kkkkk)






















- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem
- Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços.
- Criar laços?
-Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
-Começo a compreender, disse o principezinho.
-Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou ...
-É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra ...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom ! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de teus passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem fugir para debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha longe, os campos de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo ...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um cativa-me!
-Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
-É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto ...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca há hora de preparar o coração ... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta feira então é o dia maravilhoso!



Saint-Exupèry

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


Fonte do texto:
Meu olhar sobre o mundo e as coisas


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Terça-feira, Setembro 22, 2009

De barros e asas: MANOEL !



























fotopoema da blogueira Flor



RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA
................Manoel de Barros, in "O Guardador de Águas"


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Esta postagem eu dedico ao poeta
Diógenes Afonso, grávido de poesia!

Fonte do texto:
Jornal de Poesia

Fonte da imagem:
Interlúdio em flor

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

MANOEL DE BARROS, poeta mato-grossense, nascido para a vida em 1916 e parido para a poesia em 1937, com a concepção do livro - "Poemas concebidos sem pecado". Passou a ser mais conhecido a partir do ano de 1998, quando ganhou o prêmio Cecília Meireles, de Literatura/Poesia, com o "Livro sobre Nada".

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Quadros Verdes
















Quadros Verdes

Michel Quoist


E a escola é moderna.
O diretor, muito ufano, vai-me apontando todas as
comodidades. De todas as coisas a mais bela,
Senhor, é o quadro verde. Os sábios
estudaram longamente, fizeram experiências.
Agora já sabemos que a cor verde é a cor
ideal, não cansa a vista, pacifica, relaxa os
nervos.

Pensei, então, Senhor, que não
tinhas esperado tanto tempo para pintar de
verde as campinas e o arvoredo. Tuas salas
de aula funcionaram muito bem e para não
nos cansar aperfeiçoaste uma porção de
matizes para Teus prados modernos. Assim
os “achados” dos homens consistem em
descobrir o que pensaste desde toda a
Eternidade.


Obrigado, Senhor, por seres o
bom pai de família que deixa a seus filhinhos
a alegria de descobrirem eles próprios os
tesouros de Tua inteligência e Teu amor.

Mas livra-nos de pensar que fomos
nós que os inventamos sozinhos.



Fonte do txt.:
JESUS, RICARDO, ROBERTO, Português Interpretação,
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2º vol., 5ª Ed., 1971, p. 24.
Obs.: um de meus livros de Língua Portuguesa, do curso ginasial, que ainda guardo com carinho.)




Fonte da img.:
www.marceloclemente.com/Olinda.jpg



(MICHEL QUOIST nasceu em Havre (França) em 1921 e faleceu em 1997. Foi ordenado sacerdote em 1947. Era doutor em Ciências Sociais pelo Instituto Católico de Paris. Escreveu inúmeras obras, traduzidas em várias línguas e regularmente reeditadas, das quais algumas ultrapassam um milhão de exemplares).